Barra das Guias

sexta-feira, 14 de março de 2014

Oficina de Teatro 2/2 - "Como Começar a Aplicar a Técnica na Prática" ou "Ensinando a Atuar"

Olá leitores...

Continuando a comentar sobre a oficina que ministrei no dia 1º de março...

Depois de conversar e explicar a teoria (leia antes de continuar a leitura deste post) aos dois alunos (e amigos meus, professores amadores de teatro), eu passei a parte em que eu aplico a teoria na prática - e aplico ainda 02 técnicas de "interpretação" (por assim dizer)

Pode vir a ser útil para professores/educadores teatrais que aqui vêm a procurar conteúdo para aplicarem. Tentarei ser o mais descritivo possível.

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Depois de terminar de explicar a teoria, passamos à parte prática. Disse a eles que a própria "aula" de teatro deve ser baseada em alguns pontos teóricos e que as vezes não é dada a devida atenção.

Primeiro, deve-se evitar de segmentar as aulas em: aula teórica, aula de expressão corporal, aula de voz, aula disso ou aula de ensaio, aula daquilo. Todo horário que tiverem juntos é interessante passar por cada passo, nem que seja alguns minutos. Ou seja: toda aula deve ter teoria aplicada com expressão corporal, vocal, improviso, ensaio e etc... Isso é previsto com a inserção do "treinamento" dentro da aula.

Treinamento eu já vinha comentado aqui no blog: treinar o corpo que é o instrumento de trabalho do ator. conhecer esse instrumento, afinar, para então ensaiar/criar algo para apresentar. O que eu comentei na oficina é: "mudar o paradigma de chegar na aula e começar a ensaiar com o corpo frio e sem energia. É preciso ter em mente em toda aula o princípio de 'treinar-ensaiar-apresentar', ao invés do 'decorar-ensaiar marcação-apresentar'."

O treinamento, em si, deve ser dividido em outras 3 partes: alongamento, aquecimento e fortalecimento.

Alongamento = uns 5-10 min bastam. Passar por todos os membros.
Aquecimento = uns 5-10min também valem. Essa parte é interessante abusar de caminhadas, corridas, e a questão de alterações de energia - movimentos ultrarrápidos a super-lentos. Pode brincar de poses e estátua também.
Fortalecimento = 10-20min. Aqui o intuito é compreender o corpo e suas possibilidades. Eu gosto particularmente de usar o jogo das articulações, mas cabe o que normalmente se usa em uma aula de expressão corporal. Fazê-los abusar dos níveis de alturas (baixo, médio, alto) até caírem num nível de energia bem alto - antes de começar a ensaiar-criar.

Essa parte de treinamento cabe nos primeiros 20-40min de aula (dependendo do horário que você tem). Fazendo isso toda aula, é o suficiente para manter a segunda parte da aula mais aproveitável.

Algumas dicas que passei na oficina, enquanto aplicava a parte de "treinamento" foi:

1) Concentração = esta é a peça fundamental para o ator e para possibilitar a criação. A concentração deve ser mantida desde o treinamento até aos ensaios. A desconcentração vai haver, sim vai, principalmente com adolescente e jovens que nunca fizeram teatro. A desconcentração se deve ao fato de o aluno-ator querer avaliar (tanto a si mesmo, quanto aos outros) sobre o que está acontecendo no momento. Essa avaliação do aluno-ator é normal, mas deve ser combatida para não virar vício e querer sempre se avaliar.. por isso nunca fazer um ensaio de frente para um espelho - pq inevitavelmente o espelho vai ser a forma que o aluno-ator vai se avaliar e desconcentrar-se.
Devo também informar que a concentração se dá a nível íntimo, médio e geral (com o todo). Se caso a desconcentração atingir toda a turma, peça que todos voltem a se concentrar a nível íntimo - dando atenção aos movimentos conscientes que estão executando e esquecer todo o resto.

2) A Verdade Cênica = aqui, já é um nível mais advanced para os alunos-atores, porém deve ser comentado aos poucos sim, pois este que faz a representação do ator ser genuína, autêntica.
A verdade cênica é acreditar no que se está fazendo, não "fingir estar fazendo". Ou seja, ao fazer uma ação, fazê-la verdadeiramente. Não é por ser "teatro" que se deve "fingir" no palco. Não! Desminta isso aos alunos-atores!!! Deve-se acreditar na sequencia de ações praticadas, pois assim obtêm-se uma atuação verdadeira, chegando até a verdade do corpo.
Ao conseguir fazer isso - crer na ação consciente (exterior) - esta ação externa (ação física) vai ajudar na motivação do sentimento (interior - emoção) e, consequentemente, o interior evoca o exterior, tornando um ciclo vicioso.

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A Segunda Parte da Prática na Oficina foi o "Ensaio", que normalmente é conduzido de forma mais intuitiva de acordo com as aulas, por assim dizer.

Para esta parte da oficina, eu dividi o Ensaio em função de uma Apresentação Final que eu tinha em mente. Mas isso não impede um "Ensaio" de ser do jeito que você quiser.

Para esta oficina, eu quis mostrar que pode-se fazer uma encenação de qualquer fonte - não só de um texto dramaturgico. Logo, eu peguei um texto do Twitter, na verdade um microconto, e dele eu abstraí para uma encenação.

Deste microconto, eu extraí algumas ações que o texto sugeria, para usar essas ações nas improvisações dos alunos-atores. É um jeito em que o aluno-ator pode criar sobre o texto também, mas com o seu corpo.

Esta parte de extrair as ações de uma peça, está de acordo com a técnica do Stanislavski e chama-se "análise ativa do texto" - é a parte em que o diretor da peça participa da criação da encenação (em termos gerais). (Contudo isso NÃO foi ensinado na oficina, pois nem eu mesmo sei fazer isso direito).

Juntamente com as ações do texto, eu incorporei um experimento de usar improvisações animalescas para criar a partitura corporal das personagens pelos alunos-atores. Ou seja, eu usei de improvisações com animais para que o animal desse a forma de representação do personagem do texto (que não era um animal).

Assim eu improvisei com eles sobre alguns animais distintos: peru, pinguim, esquilo, pavão, ganso, urso... E conforme eles iam improvisando, eu ia avaliando as formas e maneirismos e ajudando ao ator a encontrar a forma ideal para formar a personagem.

Definido as formações animalescas, eu parti a improvisar com os verbos de ação que eu extraí do microconto (isto tudo fiz sem eles saberem o porque estavam fazendo isso. De certa forma eles já estavam ensaiando para um texto, mesmo sem saber disso. A visão deles era apenas um exercício de improvisação qualquer, aleatório. Só que não.)

Com os verbos de ação, pedi que improvisassem, usando a forma animalescas que conseguiram trazer do outro jogo, em cima destes verbos. Então, no ensaio da oficina, acabou um improviso de "filhote de pinguim" improvisando sobre como poderia "proteger-se". O outro aluno trouxe um "Ganso-Velho" improvisando sobre "Expulsar Alguém". E vários outros verbos de ação.

Isso trouxe, sem eles criarem mentalmente, mas somente com o corpo, muita referência corporal para a cena. Eles criaram a partitura corporal da personagem sem mesmo conhecer o texto, ou qual o nome e características da personagem. Uma criação vinda da improvisação - e não da marcação de cena ou da decoreba de texto.  

Isso é um caso em que a técnica de improvisação é usada em prol da criação da peça. Não partindo do "decorar texto-ensaiar" mas ao contrário "ensaiar por improviso-conhecer texto" . Isso traz até mesmo facilidade posterior em se adequar ao texto, pois as ações extraídas do texto podem trazer noções de como memorizar o texto e ditá-lo de forma coerente com a atuação. Por exemplo: a improvisação pede "empurrar alguém" e o ator cria este empurrar de várias maneiras. Ao ensaiar com o texto, o texto pede a fala "Saia daqui" e o ato de empurrar pode ser apoiado nesta fala. Assim, dependendo do modo de empurrar, a fala não será dita ao acaso, mas com motivação da ação de empurrar. A ação física "empurrar" trará efeito de verdade cênica à fala da personagem de "Saia daqui" e o ator fará isso, e memorizará isso sem problemas. Até mais fácil, a meu ver.

Em seguida, continuando a parte "Ensaio" da oficina, apresentei o microconto aos alunos-atores e pedi que ensaiassem o texto.

Curiosamente, eles leram o texto e começaram a ensaiar usando a mentalidade de "decorar-ensaiar marcações-apresentar". Ou seja, apesar de tudo que tínhamos feito, eles começaram a ensaiar fazendo marcações e gestos cotidianos (clichês) - como se nada que houvéssemos feito até então fosse aproveitável.

É possível que aconteça o mesmo com seus alunos, pois todos nós tendemos a fazer o que nos é conhecido (ou fácil, ou do jeito que achamos ser o certo). Não desanimem, apenas os orientem para que sigam conforme o jeito que vinham fazendo.

Outra coisa que aconteceu, foi que eles, ao lerem o texto, começaram a dialogar sobre como deveriam fazer a cena - usando da imaginação para formular a cena. Isso isso também é INCORRETO se caso usarem da técnica de improviso. O ideal é que comecem a ensaiar sem "idealizar no campo das idéias", sem comunicar um quadro mental com o parceiro. Eles devem ensaiar improvisando a cena, deixando-a fluir conformem fazem. Isso, num primeiro momento é um pouco estranho e complicado para eles, mas invistam neste método de ensaiar e criar cenas, pois o resultado muitas vezes acaba sendo improvável e compensador.

Ao tentarem ensaiar como outrora, eu repreendi os alunos da oficina e pedi que ensaiassem usando as improvisações que tínhamos feito, todas elas. E que ensaiassem sem se comunicar entre eles, apenas seguindo a intenção da cena (que deve ser deixada óbvia para eles - neste caso o diretor/encenador deve explicar para os atores - ou se quiserem [para uma turma advanced] deixem que eles criem a intenção da cena, conforme interpretaram ao ler o texto) e usando das ações físicas que tínhamos improvisado.

Neste tipo de ensaio, já é elaborado o perfil da cena - e eles mesmos acabam criando sua sequencia de ações (e não o diretor apontando marcações). O diretor/encenador deve auxiliar aos atores verificando qual das improvisações de cena é interessante (conforme a linha de encenação que queira para o espetáculo). Não seja um diretor-tirano (típico do séc XIX) em que marca toda a misè-en-scene passo-a-passo para que o ator-marionete siga. Deixe o ator, neste ensaio, criar a cena e assim, ele mesmo estará dando sua forma de criação para o espetáculo.

Os ensaios seguintes acabam a ser ensaios de refinamento das cenas criadas, deixando uma atuação mais limpa e acrescentando acessórios cênicos [como cenário, som, figurino, maquiagem, etc ou nada] conforme seja coerente com o estilo e linha de espetáculo que o diretor/encenador da peça tem em mente.

Ao final da oficina, deixei-os fazer uma apresentação final da encenação conforme eu tinha planejado. Claramente que saiu diferente que eu tinha imaginado quando a imaginei - e isto é bom, pois tanto eu (como encenador) quanto eles (como atores) criamos juntos uma cena. Eu criei o formato de apresentação, guiando os atores conforme iam criando a cena que eu tinha formatado. Uma criação conjunta.

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Bom, embora este relato seja mais descritivo, espero que seja possível extrair dele conteúdo para que se aplique a qualquer tipo de processo teatral.

Não digo que estas técnicas apresentadas sejam as corretas - e que outros jeitos sejam errados. Não! No teatro a experimentação de técnicas, métodos, jeitinhos e afins é que faz o processo de criação seja agradável para todos os envolvidos. Contudo, estas técnicas que passei tem embasamento em vários pensadores do teatro contemporâneo e em práticas teatrais históricas, experimentadas por séculos. Não escrevi aqui neste post (nem ensinei na oficina) nada que não tenha um porquê ou que não tenha sido usada anteriormente. Apenas usei o atalho do conhecimento da história do teatro para não ficar tentando inventar a roda toda vez que pensar em ensinar teatro ou mesmo fazer uma peça. E, se me permitirem, aconselho a vocês - alunos, atores, professores e educadores - a usar também deste atalho.

Merda para todos.

Obs: Qualquer dúvida, mandem comentários ou email.









terça-feira, 11 de março de 2014

Oficina de Teatro 1/2 - "Como Ensinar Teoria de Teatro" ou "Quebrando Paradigmas"

Olá ilustríssimos leitores...

Venho, depois de muito tempo, a escrever outro post para o blog, dessa vez por 2 motivos:
1º - Há tempos que venho acompanhando as estatísticas e parece que recebo mta visita de professor/educador teatral (vide pesquisa ao lado) e
2º - Meu post mais visitado, com mais de 5 mil visualizações é sobre como começar a primeira aula.

Então vejo que este post pode ajudar quem quer começar de mesmo modo.

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No dia 1º de Março de 2014, ministrei uma oficina teatral à dois amigos meus, professores de teatro da minha cidade natal. Contudo (para vcs entenderem o contexto) eles não são profissionais, nem graduados, nem nada. Amadores de Teatro. Apenas amam teatro e dança e conseguiram um lugar para ensinar teatro para crianças e adolescentes.

O meu porém, desde que comecei a estudar teatro (se vc leram os posts, sabem que foi por volta de 2011) é que só apenas fazer sem conhecer pode ser frustrante. Caí no cliché de "decorar-ensaiar_marcações-apresentar" de que esses meus amigos vinham praticando com seus alunos - ou seja, não acrescentando nada em termos de qualidade teatral. Apenas um teatrão comercial, típico de meados do século XIX.

Foi então que, somado à minha vontade de esclarecer esse paradigma do amador (decorar-ensaiar-apresentar) e de levar conhecimento aos que precisam (seja por este blog, seja por oficina gratuita) decidi fazer uma oficina teórico-prática especialmente para eles - professores amadores de teatro.

E aqui vai meu relato e roteiro desta oficina, o que apliquei, como apliquei, o que expliquei, um passo-a-passo para dar um up numa aula de teatro - para adolescentes, jovens e adultos. (para cças tbm pode ser aplicado, mas acho que depois escrevo outro post)

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ROTEIRO DA MINHA OFICINA DE ENSINO TEATRAL PARA PROF. AMADORES

- O que se precisa para fazer teatro? Eis a pergunta carro-chefe para você, prof/educ refletir... É necessário lugar, texto, atores, cenário, música, luz, improvisos, público, figurino... ??? Mas o que é estritamente necessário para que "a mágica do teatro" aconteça??? Se refletirmos bem, ficamos com atores, público, lugar/espaço e texto. Certo? Errado?

Peter Brook comenta: a célula do fazer teatral tem 3 elementos fundamentais: o Ator, Público e Espaço.

Mas e o Texto???

A história do teatro, desde a antiga Grécia, traz dramaturgos como Eurípedes, Sófocles, Ésquilo e Aristófanes como principais autores de teatro. (e textos como Medéia, Édipo-Rei, Antígona, etc..)
Na Idade Média, temos o Gil Vicente com o Auto da Barca do Inferno e outros...
No Renascimento (Período Elisabetano) contamos com Shakespeare e sua dramaturgia universal.
Ainda contamos com Molière na França do século XVII até o século XIX
E no início do século XX tem Tchecóv e então, enfim, chega um dos primeiros teatrólogos que todos os amadores devem (ou deviam) conhecer: o russo Stanislávski.

Stanis (apelido carinhoso) foi um dos primeiros caras que refletiram sobre o fazer teatral. O "como" o ator consegue "encarnar" um personagem. E para tal, ele escreveu alguns livros sobre suas reflexões. Estes livros do Stanis existem em português, porém eles foram traduzidos do inglês americano (que este foi traduzido do russo original). O problema é que a versão americana sofreu algumas eliminações de textos do russo, e algumas outras coisas que não o fazem ser a leitura perfeita (quiser saber mais, clique neste link). Isso traz para o amador, que lê sem saber, e acha que o texto é perfeito, então acaba compreendendo algumas coisas erroneamente e reproduzindo o "sistema Stanislavski" de forma errada.

Digamos que, (vou esclarecer de modo mais leve e superficial, sem entrar em questões que graduações e cursos profissionais devem ou deveriam entrar), o Stanis achou, num primeiro momento (em seu primeiro livro) que o ator deve despertar o "personagem" a partir das suas "emoções" - ou seja, vem de dentro para fora, deixando a inspiração fluir e a interpretação realista aparecer. Isto é o que vc aprende do primeiro livro do Stanis - "a preparação do ator", lançado em russo aprox nos anos de 1926-38 (wikipedia).

CONTUDO (atente-se muito a este parágrafo de agora) o próprio Stanislavski EVOLUIU seu "sistema": "Não se pode confiar na 'emoção' ou 'inspiração' porque cai no clichê. É preciso confiar na evocação consciente (...)" EVOCAÇÃO CONSCIENTE. O que é consciente? Aquilo que se tem consciência, pleno funcionamento dos sentidos, aquilo que é feito com pleno conhecimento do próprio indivíduo (Dic. Aulete, 2014). Ou seja, o Stanis evoluiu seu sistema de algo que vinha de dentro (inspiração) para algo que vem de fora (consciencia de fazer). E a esta evocação consciente, ele chamou de ações físicas, pois tudo que fazemos conscientemente são resultados de um agir, de um movimento, da realização de uma atividade/postura/gesto.

Esta inversão do paradigma inicial de sua pesquisa só veio um bom tempo depois (dizem 30 anos depois) que os ensinamentos do primeiro livro já tinham se difundido pelos EUA e de lá para o mundo. Meio que por esta razão que muitos atores-estrelas creem serem dotados de um "dom mágico" do fazer teatral - pois acham que suas emoções lhes lançam uma bela interpretação realista.

Bom, isso tudo, aconteceu até meados do século XX. (se caso vc ainda faz isso, melhor vc pensar a respeito e se modernizar, e parar de tentar descobrir a roda, porque né... repetir os erros do passado é trash!)

Enquanto isso aconteceu lá pela Rússia (Stanis e as ações físicas para o ator interpretar um texto dramaturgico), na França acontecia uma outra coisa.. em partes semelhante.

Até início do século XX, na França o que reinava nos palcos italianos eram o showbusiness do teatro (sistema de estrelato como acontece nos filmes). Atores-estrelas que subiam no palco (para alavancar mais público e mais dinheiro) para recitar o texto de um dramaturgo conhecido (um texto/roteiro bom), enquanto era mostrado o figurino luxuoso, o cenário deslumbrante, a orquestra maravilhosa para um Rei, burguesia, apenas estarem lá presentes por status. Os demais atores eram manequins dos figurinos, pobres recitadores de texto, e dirigidos à mão de ferro por um sistema de marcação de palco - "ande até ali, gesticule e fale o texto".

Neste tempo, Jacques Copeau (1979-1949) foi um crítico teatral que percebeu que se continuasse assim, o teatro deixaria de ser teatro... Era muita filhadaputagem nesse sistema de estrelato que o ator não tinha vez no teatro. Assim, subiu nele uma vontade de re-educar o ator para que pudesse realmente fazer um teatro de qualidade.

Deste modo, ele criou a escola Théâtre du Vieux-Colombier em Paris, na qual estabeleceu 3 elementos para que o ator devesse estudar para melhorar sua capacidade interpretativa: o espaço, a improvisação da Commedia Dell'Arte e o Corpo Articulado (provindo dos teatros orientais - Japão, China, India).

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Fazendo uma breve interrupção para re-contar a história do teatro sem levar em conta o texto dramatúrgico.

O teatro tem seu início com o teatro primitivo, com os rituais, em que o homem não tinha um texto, mas um contexto a seguir, a vibrar sua energia.
Na própria grécia, além dos grandiosos dramas gregos, existiam os mímicos e as danças, que era divulgadas e apresentadas para o povo, na rua, para as pessoas comuns, para os marginalizados.
Na India, China e Japão, o teatro também passa pelo ritual, pela dança.
Na idade média, renascimento, o teatro de rua ganha os cômicos da Commedia Dell'Arte e o improviso corporal, trazendo técnicas de mímica, voz, acrobacias e bagagem cultural. Eram apresentados em feiras, ruas e praças. Era ditos improvisadores.
A Commedia Dell'Arte acaba sendo incorporada ao teatro de Molière, na França, até ser reencontrada pelos teatrólogos do século XX.
(A mínima que aqui cito é diferente da pantomima, que é a imitação clássica do Marcel Marceau - o mímico mudo que faz parede invisível).
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Assim, Jacques Copeau usava da improvisação (provinda dos comediantes dell'arte) para quebrar a dicotomia da criação teatral de autor/ator, trazendo uma nova posição ao ator - até então renegada - a de Ator-Criador

Artaud, outro um teatrólogo francês, também comenta sobre a criação no teatro. Escreveu que "não representamos sobre obras escritas, mas em torno de temas, fatos ou obras comuns, tentaremos uma encenação direta (...)".

E não foi só o teatro francês que foi contra à ditadura do texto no teatro.

Meyerhold, um aluno do Stanislavski, tbm pesquisou e refletiu sobre o trabalho do ator, de que este nascia do movimento... Teve como inspirações de seu trabalho a commedia dell'arte, a pantomima e o teatro chinês.

Grotowski - da Polônia - também busca entender o processo teatral que acontece entre ator e público - este processo na susa pureza, sem adereços cênicos...

Eugênio Barba (Italiano que foi pra Dinamarca) também estuda o treinamento para o ator. Conclama a Antropoliga Teatral - trazendo a idéia de um movimento extra-cotidiano para o ator. E a concepção de treinamento-ensaio-apresentação para o processo do fazer teatral.

A nossa famosa artista Denise Stoklos ratifica, em uma entrevista, que caso o trabalho do ator se inicie com um texto, ele começa pela metade, pois já existem os personagens, a história, os valores envolvidos. Que ela gosta mesmo é de ser a própria autora, de criar a personagem e trazer à tona a trajetória inteira.

Por fim, Luís Otávio Burnier - fundador do teatro LUME - comenta em seu livro que o ator:
- não faz teatro; Teatro é uma palavra que significa o Espaço de Contemplação. É a construção arquitetônica. O ator faz "arte de ator" - não "do ator" pois ele não é dono nem tem propriedade sobre esta arte.
- não interpreta; O ator se põe como intermediário entre a obra escrita e o público. O público interpreta os signos que o ator lança a ele. O ator representa algo ou alguma coisa que é transmitido ao público através de uma forma/simbolo/signo.

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E esta foi a parte teórica que eu passei na Oficina para prof/educ amador teatral.

É interessante que o prof/educ teatral conheça pelo menos o básico da história do teatro e que não queira reinventar a roda, mas que use deste conhecimento para transmitir uma base, mesmo que simples, para que os alunos não saiam achando que fazer teatro seja decorar-ensaiar-apresentar. Que é muito mais que isso.

Que o ator pode criar sobre o texto. Que ele pode improvisar (corporalmente) sobre as ações físicas de um texto. Que ele deve treinar seu corpo para que este seja a base da interpretação (e não as emoções-inspirações).

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E como isso pode ser levado à uma aula de teatro? Fácil. Converse com seus alunos, faça que uma de suas aulas seja um pouco mais teórica e passe um Bê-a-Ba da história do teatro, falando da grécia antiga, da commédia dell'arte, leve videos, leve filmes, fale do sistema de estrelismo que acontecia (e ainda acontece), e por favor, fale que ele não deve tentar usar as emoções para representar um papel, mas usar do corpo consciente (dos movimentos) para basear o seu papel.

E ah, também aproveite e tire da cabeça do aluno que fazer teatro vai levá-lo à ser um astro da novela das oito. Se ele quiser isso, que faça cursos destinados à interpretação para vídeos, cursos em SP e RJ. O teatro evoluiu e não quer ser uma próxima novela das oito, mas quer ser uma arte cultural única, viva, presente.

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Num próximo post, comento da parte prática desta oficina e exercícios que usei. E técnicas que vcs podem usar nas aulas. E o como utilizar improvisações corporais com os alunos.

Merda pra vcs.

Obs: Alguma dúvida, só escrever nos comentários...



segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Um fim...

E a descrição do último post foi a última coisa teatral que fiz desde 2011. De lá, até agora em 2013 eu não mais mexi com teatro nem cursos, nem montagens, nem leituras. Ainda sou um apaixonado pelo fazer teatral, mas essa minha paixão se estende somente à apreciar as diversas peças e montagens que acontecem na minha cidade/região. Agora mexo com arte de uma outra forma que também me preenche. Segui adiante me enamorando por outra vertente que também mexe com arte. Um outro tipo de arte. Mas isso já é mais pessoal. 

Terminarei meu diário de aula de teatro por aqui. Foi bom enquanto durou. Por vezes posso voltar, um dia, quem sabe, a vir a atualizá-lo, mas não garanto. Foram quase 02 anos de teatro que me fizeram muito bem, mas é hora de deixar este blog para vocês que por vezes visitam e o lêem e relêem. O blog permanecerá na internet para aqueles que precisam de um guia amador na net. Não o apagarei. Apenas torço para que ele vos sirva assim como me serviu um dia. E que vocês, leitores, sigam fazendo o que o coração pede, treinando e ensaiando e praticando e, quem sabe, até mesmo lendo e aprendendo mais sobre a vasta teoria teatral existente - e que já mencionei mtas vezes aqui no decorrer do blog. 

E não desistam mediante nenhum comentário sobre o que vocês fazem - se vocês tem vontade e disciplina, sigam firmes. Aprendam mais e mais, mesmo se não puderem/conseguirem fazer um curso de teatro profissional ou graduação, leiam e leiam e leiam. Pois somente com conteúdo podemos rebater as críticas negativas daqueles que não conhecem a arte do fazer teatral. 

E deixo para vocês a melhor síntese (minha opinião) do que é o fazer teatral. Conforme Burnier (2009) cita (cf. Peter Brook, 1977): "(..) para que a ação tetral possa ser esboçada são fundamentais três elementos: o espaço vazio, o espectador (alguém que observa esse espaço) e o ator (alguém que cruza e, portanto, desenvolve uma ação nesse espaço). Esses três itens compõe (...) a célula da arte teatral, sua menor partícula viva." 

MERDA para vocês!!! 

Obs: quem quiser conversar sobre teatro ou qualquer coisa relacionada, meu email é glvila_cp@yahoo.com.br - e ponham como assunto do email algo relacionado à ao blog ou teatro, senão nem responderei.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

After a long time...

Olá pessoas que por ventura ainda vêm aqui checar se tem novidades... Agradeço os poucos comentários que consegui  ( 12 comentários em + de 2 ano) e vim aqui registrar minha sumida e alguns motivos...
- Desde meu último post (ago/2011) eu continuei com a minha turminha de teatro até o final do ano em que fizemos uma pequena apresentação (10min) de uma adaptação do conto A cigarra e a Formiga. Segue o poster que fiz na época:


- E apesar de ser de uma fábula, o fiz seguindo algumas técnicas arcaicas teatrais - adaptando a fabula para um Canovaccio (fiz intuitivamente). Canovaccio é uma estrutura teatral muito simples, que vem desde o século XV aproximadamente (teatro medieval) (fonte: wikipedia). O Canovaccio tbm foi mto utilizado como base dramática da commedia dell'arte. (um dos estilos teatrais que me influenciou bastante). Segue o esquema de um Canovaccio que fiz para adaptação desta fábula:

A Cigarra e as Formigas
 
Canovaccio
 
1 – É primavera, sem cigarras, as formigas se reúnem e começam as buscas para procurar os alimentos para o estoque. Atravessam a mata, alegres, trabalhando. Pegam e voltam para casa.
 
2 – É verão. As cigarras estão à toa, vagabundeando. Ao som das formigas, as cigarras se escondem e armam uma traquinagem para roubar comida das trabalhadoras, que fogem apavoradas.
 
3 – É outono. As formigas ainda continuam sua saga de pegar folha por folha, em um trabalho mecânico e esforçado. As cigarras além de tirar sarro delas, ainda roubam alguns alimentos e atrapalham-nas em seu trabalho.
 
4 ­– É inverno e as formigas não aparecem. As cigarras ficam perdidas, pois onde estarão as formigas com a comida? E em busca das formigas, acham-nas todas juntas desfrutando de calor e alimentos. As cigarras pedem um pouco de misericórdia, um pouco de pão, mas as formigas tiram sarro dela e deixam-nas morrer de frio. 
Também fiz, após este canovaccio, uma misè-en-scene básica (misè-en-scene refere-se à movimentação e posicionamento no palco, bem como,no sete de filmagem [fonte: yahoo respostas]). Segue a misè-en-scene para vocês entenderem como foi a peça: 

Misè en Scene
 
1 – Formigas começam de fora do palco a murmurar a música dos Sete Anões, marcando o ritmo com os pés. Segue entrando no palco com a voz cantando e os passos leves, em fila indiana, atravessando de uma lado para o outro o palco – de coxia à coxia. Pegam os alimentos do outro lado da coxia e atravessam novamente com os alimentos segurados sobre a cabeça até o ponto de partida desta cena.
 
2 – As cigarras entram ao palco cada qual a seu modo, chutando o ar, sem nada a fazer. Encontram-se uma a outra, trocam cumprimentos e escutam as formigas iniciando a música de fora do palco. As cigarras, cada uma vai à um canto frontal do palco e deitadas, ficam a esperar as formigas passar. As formigas atravessam o palco para pegar comida.
            As cigarras levantam-se, cochicham-se ao ouvidos e vão ao outro canto do palco esperar que as formigas venham. Ao as formigas entrarem, as cigarras começam a cantam a ciranda para roubar a comida das formigas.
            Com a ciranda, as cigarras destroem a fila indiana e encurralam as pequenas dentro de uma roda, onde roubam os alimentos e então expulsam-nas do palco para a coxia.
            As cigarras, alegres e rindo, saem pela outra coxia, comendo.
 
3 -  As formigas entram (sussurrando a música) em fila indiana, porém ficam enfileiradas e começam a cantar (formiguinha pega folha e carrega) e fazem esse trabalho mecânico até todas as folhas sejam pegas.
            As cigarras aparecem cada qual de um lado da coxia e cantam sua parte (veja só que trabalho horroroso, a formiguinha tá fazendo muito esforço). Então entram e vão roubando e atrapalhando o trabalho da formiguinha, que ficam perdidas até que saem com o que conseguem levar, se juntando em coro. As cigarras ficam no palco.
 
4 ­– As cigarras põe o cachecol em torno do pescoço e tremendo, começam a esperar pelas formiguinhas entrarem. Em vão. Então começam a passar fome e sentir fracas. Então começam a cantar “pejúrias” para as formigas, até que estas aparecem ( 2ª estrofe) e respondem todas, cantando a 3ª e 4ª estrofe da música – que é a resposta para a cigarra.
Ao finalizarem a música, as cigarras caem congeladas (morrem de frio) e as formigas congelam em coro.
Com as palmas, todas levantam-se e de mãos dadas vão para a frente do palco e agradecem ao público. E saem como formiguinhas, com as duas cigarras por último, dançando e pulando atrás das formiguinhas. 

- Para ajudar na fixação do texto dramático, utilizei uma técnica básica: a paródia musical sobre as músicas folclóricas/cantigas de roda/popular brasileira. utilizei as músicas: Eu vou, Eu vou (Sete Anões), Ciranda-Cirandinha, A Formiguinha pega Folha e Carrega, A Barata diz que tem.  
- Parodiei - junto com as alunas - estas cantigas para se adequarem ao texto dramático. 

Segue um texto em que resumi e apresentei a montagem teatral para divulgação, na época: 

As Cigarras e As Formigas
Montagem teatral baseada na Fábula
 
                Durante as três estações que antecedem ao inverno, as formigas se esforçam em trabalhar, alegres e contentes, para estocar seus mantimentos. As cigarras, ao contrário, além de serem afobadas e esfomeadas, só atrapalham as formigas. Ao fim, as formigas condenam a falta de disciplina da cigarra, deixando-as congelar.
                A montagem cênica conta a história da tradicional fábula de Ésopo, reinterpretada para uma mensagem contemporânea de que o esforço e disciplina valem a pena. Esta nova interpretação da fábula permite a interpretação da sociedade, em que a procrastinação não é o melhor jeito de se viver, mas que a garra e vontade em trabalhar – alegre e feliz no que se faz – é que traz à vida um propósito.
                Partindo do pressuposto de que um teatro infantil deve possuir uma linguagem acessível para o público ao qual se destina, a peça foi elaborada com uma estética que permite ao público, além da empatia, também a imaginação: utiliza-se da ausência de figurino convencional, porém simbolista, e do espaço vazio – em referência ao teatrólogo Peter Brook – para que ocorra a “magia” do teatro, que é preenchê-lo com vida. 
                O processo de montagem também contou com o esforço grupal, permitindo que se diga que foi feita “por e para crianças”. 

No primeiro e segundo parágrafo eu apenas explico a peça e o objetivo dela. Bem simples, básico, objetivo até demais. No terceiro parágrafo, para nós aprendizes de teatro, a parte mais interessante: Linguagem acessível às crianças = teatro é fantasia, e por fantasia segue a imaginação. Logo, neste teatro, não contei com um figurino rígido e literal de formiga e cigarra. Utilizei um arquinho com arames com bolinhas nas pontas para fazer as formigas (e um figurino pretinho básico de bailarina) e para as cigarras, eu cortei uma camiseta grande doada e pintei com tinta de tecido em listras, em que minhas duas cigarras utilizaram por cima do pretinho básico. Só isso. 

Ainda no terceiro parágrafo, evoco o "espaço vazio" do Peter Brook - referencia direta ao "the carpet show" (mais conteúdo sobre peter brook and the carpet show aqui e aqui) em que (explicando em linhas gerais e rápidas) a magia do teatro só acontece dentro de um limite físico consensual entre público e atores - no caso do Peter era o limite do tapete. No meu caso, eu usei fita adesiva no chão que delimitava o espaço de "dentro e fora do palco". Ou seja, as coxias não existiam, o que existe é o limite desenhado no chão entre "ali é onde eu viro personagem" e o "aqui fora eu sou um ator fora do palco" (e o público vendo essa transição na sua frente). 

Optei por esta estética por achar que utilizar as coxias para o ator sair de cena é algo tão tradicional e "clichê" e que eu poderia apresentar para o público que o teatro acontece assim, magicamente na sua frente, se vc tiver imaginação e entendimento de que aquele limite desenhado no chão é o lugar onde a arte teatral realmente acontece. 

E no útlimo paragrafo eu digo que foi feito "por e para crianças", porque foi verdade: as minhas alunas que criaram toda a atuação e movimentação. Elas me ajudaram a parodiar as cantigas de roda (e, logicamente, escrever o texto dramático). Elas que trouxeram o figurino básico e ajudaram a fazer os demais. Elas ajudaram em toda a criação do espetáculo. E elas fizeram de um jeito que elas se divertiam.

- Mas para não parecer que só de rosas é trabalhar com crianças e adolescente, teve momentos de problemas. 

1) crianças mto pequenas e o ensaio: ensaiar repetidamente uma cena ou uma cantiga de roda parodiada era cansativo e desgastante para elas. Muitas ficavam chateadas por não "brincarmos" mais e só ficarmos repetindo e repetindo. 

2) adolescentes acharam a peça mto infantil demais - e muitas vezes questionavam ou não apareciam ou atrapalhavam. 

O que fiz? separei crianças pequenas e menores para serem as formiguinhas e trabalhar com um personagem de modo coletivo. Utilizei para elas o treinamento de coro (teatro grego) para trabalharem juntas, cantarem juntas, serem juntas uma personagem só: "as formiguinhas". 

Para 02 garotas maiores, fiz-las serem "as cigarras". foi um papel de destaque, confesso, mas elas eram as mais dedicadas do grupo e disciplinadas. Uma era tímida e a outra agitada. Trabalhei a extroversão na tímida através de jogos teatrais da Viola Spolin e outros daqui do blog. 

Para outras 04 adolescentes que não queriam ser formigas, tive que interferi na misè-en-scene e acrescentar algo na montagem fora do padrão tradicional de apresentação - começo meio e fim sem interferencias. Para estas somarem na apresentaçãoo (e não ficarem de fora) eu acrescentei na montagem umas inteferencias narrativas - provindas do meu entendimento super-basico do estilo teatral Épico do teatrólogo Bertolt Brecht. Como o fiz? Meu entendimento sobre brecht se dá na interferência da peça para trazer o público para a realidade no meio da peça (como um intervalo da novela na tv - metaforizando). Imagine que vc vendo a novela está tão em fluxo assistindo que esquece até que horas são. Ao adentrar um elemento de interferencia - o intervalo na TV - a gnt volta à realidade e percebe que já ta tarde, o arroz queimou e estas coisas. 
No teatro e cinema, normalmente não existem tais interrupções. Somos levados em fluxo pela narrativa do começo ao fim, sem sentir que aquele filme/peça tinha 2horas de duração. Ao utilizar da interferencia, eu trago o publico de volta à realidade de "estar assistindo a uma montagem teatral" e isto o faz refletir sobre o "fazer teatral" que está ocorrendo na sua frente, ao vivo, aqui e agora. O público sai do assistir passivamente e começa a pensar ativamente que aquilo ali é uma arte efêmera, criada no momento presente, em frente a seus olhos. 

Com isto, estas adolescentes, além de serem as "contra-regra" da montagem (ajudando com alguns elementos da peça", a cada passagem de uma cena para outra, elas entravam e declamavam uma rima poética sobre a cena que viria ser apresentada a seguir. No caso desta peça elas anunciavam as estações do ano, fazendo a transição de tempo que existe na fábula. 

Assim todas elas participaram da apresentação final, que durou por volta de 10 min. 

Não era uma montagem ultra grande pois eu tinha restrição de tempo, e meus ensaios foram corridos e curtos. Comecei o ensaio uns 2 meses antes. Tive muito medo e receio de ficar uma droga e ninguém entendesse o motivo de ser simples. Tenho a impressão que de muitos pais podem ter achado a peça bem pobre, simples, básica e não digna de ser chamada de teatro. Mas para meu parceiro que me foi meu assessor cênico (ele é graduado em Artes Cênicas pela UEL) - a peça teve mais empenho e base construtiva que a apresentação seguinte (foram 2 apresentações no dia, esta montagem e um balé baseado n'O Mágico de Oz) que teve todos os clichês e trabalho tradicional - figurinos literais de cada um dos personagens principais, objetos cênicos literais, cenários e mto custo e orçamento. 

E bem, de certo modo, consegui apresentar uma peça que me agradou profundamente, pois foi construída com base, com motivos, e seguindo a máxima do "Teatro Pobre" de Grotowski (ver mandamento nº 2) . A peça teve o essencial para alcançar seu objetivo. Foi simples, sucinta, objetiva e nem por isto perdeu o encanto de ver crianças de 04 a 09 anos cantando e atuando sozinhas no palco. Meu objetivo como apreciador da arte teatral teve seu ponto máximo com esta montagem que desenvolvi.