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domingo, 21 de maio de 2017

Como Dirigir uma Peça de Teatro - Parte 2

Continuando a saga... (se você não viu a primeira parte, leia aqui)

Nesta postagem, vou continuar a narrar minha saga no meu primeiro ensaio como diretor teatral, citando algumas dicas e teorias dentro do texto. 

Claro que, se você já leu bastante coisa do blog, sabe que eu vou vou falar um monte de baboseira, e narrar as aventuras, mas no meio disso tudo (acho que) você consegue retirar algumas coisas boas para se fazer (ou coisas para não se fazer também). Não me tenham como exemplo: sou apenas alguém normal que sabe que quase não sabe nada de teatro, mas se aventura a escrever como se soubesse bastante coisa. (E ainda me acho humilde, acima de tudo, rs) Enfim, acho que já tá bom de introdução, 'bora começar a nada boa aventura. 

"Previously on... Como Dirigir uma Peça de Teatro"

Como disse, cheguei ao primeiro ensaio com dois desesperos (texto e atriz) e uma omissão grave. Quer dizer, antes, recebi um aviso pelo facebook que uma das atrizes (a que eu conheço e que não é meu desespero) não iria. Mas como "the show must go on" eu não me amedrontei e confirmei presença com a atriz desespero profissa para o primeiro ensaio. 

Então, deixe-me atualizar: cheguei ao primeiro ensaio com 3 desesperos (texto, atriz profissa, e sozinho só com ela) e uma grave omissão. 

Cheguei, como sempre, uns 5 min antes do horário (odeio atrasar e odeio atraso). Já fiquei feliz pela atriz também não ter chegado atrasada. Chegou em cima do horário e logo nos pomos a trabalho. O nosso local de ensaio há muito não era utilizado e, por esta razão, tivemos que dar uma limpadinha antes. Foram uns 15-20min a menos de ensaio para limpeza. (E aqui está a primeira dica = se não quer perder tempo de ensaio, que o local já esteja pronto antes do horário marcado para ensaio. Em teatro amador, ou estudantil, cada minuto de ensaio conta. E nunca temos tempo suficiente de ensaio, ou seja, não adianta marcar 4-6 horas de ensaio, porque seus atores não vivem disso. Não são profissionais de teatro, que o ensaio é seu ofício. Por isto, aproveitem cada minuto de ensaio, chegando mais cedo e saindo mais tarde).

Depois dessa limpezinha, sentamos eu e ela, diretor com atriz, para então quebrar o gelo (pois eu não a conhecia ainda). Mas não só por isto, também para falar um pouco do projeto que eu estou querendo fazer, do texto (abordando no geral, sem dar mtos spoilers) e alguns motivos que me levaram a propor isto para elas. Eu acho significativo ser sincero para seus parceiros de trabalho, pois você precisa dos atores para que seu projeto de espetáculo seja executado. Mesmo se forem alunos ou crianças. Eles reconhecem com isso que você não vai ser um chefe chato, mas um líder que vai dirigi-los para um resultado final (mesmo que, no caso, o resultado não seja o que você tenha sonhado. Por isto não ponha tanta expectativa nem perfeccionismo em cima do projeto. Você pode se frustrar e virar um tirano no meio do processo e começar a comandar para que atinjam o seu grau de perfeição. Cuidado!) 

Conversei com ela por um tempinho, até que enfim, começamos o ensaio. 

Quem lê o blog deve já suspeitar como iniciei o ensaio: aquecimento, treinamento e ensaio. 

Sim. Acertou. 

Mas tem um porém nisso que eu aprendi. E depois lhes conto. 

Comecei com a parte de aquecimento: alongamento da atriz. Depois um aquecimento mais geral, pedi para que andasse no espaço de acordo com o ritmo (peguei um pedaço de pau e fiquei batendo no chão, ditando um ritmo no qual ela seguiria com o passo dela. Se eu batesse com o pau no chão rapidamente, ditando um ritmo mais rápido, ela deveria andar mais rapido, até mesmo correr. Se eu deixasse o ritmo de batida mais espaçado, mais lento, ela deveria andar devagar, quase parando). Este exercício eu gosto dele pois trabalha a concentração e também já a energia corporal - aquece e deixa o corpo preparado. Depois passei pro exercício de articulações (que já descrevi milhares de vezes pelo blog - quem não sabe, procure por posts mais antigos) e neste eu também usei a questão do pau para ditar o ritmo do moviemento corporal enquanto fazia o exercício. (Posteriormente, ela chamou o exercício de "dança corporal"). 

Após este dois exercícios para aquecer o corpo e o deixar mais pronto para começar as improvisações, eis que eu entro em desespero (sim, a omissão se revelou nesta hora, pois eu percebi a burrada que eu fiz, ou melhor, não fiz). Percebi, naquele momento, que eu deveria já ter alguns exercícios para ensaio prontos. Alguns exercícios previamente já pensados, alguns exercícios plano B (caso o primeiro não funcionasse) e até mais de um exercício... O caso é que eu paralizei e fiquei cru na frente da atriz. 

Confesso que eu não sou a melhor pessoa do mundo, não sou perfeito, estou aprendendo na prática com estas burradas das boas. Na hora o que eu fiz? Aproveitei que ela era profissa e pedi ajuda. "O que fazer agora? Como dirigir?" Ela  me sugeriu que eu propusesse alguma situação, algum problema, alguma coisa  que eu já tivesse em mente. Mas eu não tinha nada em mente! Mentira, eu tinha sim. Era uma idéia besta de um misè-en-scene que eu idealizei enquanto tentava solucionar o problema do texto na questão de dividí-lo em ações. Foi então que, sem tempo pra pensar, tive que tentar arranjar alguma proposta viável para a atriz não ficar sem fazer nada. E aquele silêncio constrangedor já estava me amedrontando... 

Foi então que, a primeira proposta foi... um tiro no escuro. Falei bem inocentemente "improvise sobre o verbo vestir" E ela ficou meio abobada com o que eu quis dizer... Será que eu me fiz de idiota na frente dela? Bem, acho que sim. Mas ela foi me ajudando também (graçazadeus!) e comentando que, ela poderia improvisar de várias maneiras tão genéricas que poderia ser muito diferente do que eu tinha em mente. Ela poderia improvisar uma mulher vestindo, um velho vestindo, um animal vestindo, um alien vestindo... faltava uma linha de partida (um contexto) para ela entender quem era ela (ela = personagem/performer). Foi neste estalo que eu prontamente disse: "okay, começar pelo personagem" E então, antes de improvisar a ação da personagem, fomos improvisar afim de encontrar a personagem. Mas como? Qual seria o ponto de partida para a atriz encontrar a personagem - isso pq eu não tinha passado pra ela o texto dramático para ela ver. Ela não sabia qual a intenção ou cena idealizada eu tinha na cabeça. E, pra falar a verdade, eu queria testar uma direção que a atriz encontrasse a personagem seja qual fosse, não que eu falasse "você é tal personagem, assim assim assado". Este fato é algo que eu quis tentar, experimentar para ver se funcionava. Mas continuemos a narração... 

Seguidamente pedi para ela que voltasse ao exercício das articulações e, quando encontrasse algum movimento interessante, transformasse esse movimento abstrato em personagem. E lá fomos nós improvisar movimentos corporais para encontrar a corporificação da personagem da peça. Ela  o fez extraordinariamente muito bem, entendeu a minha sugestão de guiamento e o fez sem reclamar. Estava lá dançando/articulando-se e quando um movimento era interessante eu pedia para transformar em personagem, para usar dos movimentos principais da dança e aperfeiçoá-los dentro de uma corporificação de futura personagem. 

Particularmente, foi uma experiência muito interessante ver os atributos físicos de um possível personagem surgir de um exercício de movimentos aleatórios. Metaforicamente é como rabiscar num papel branco e do rabisco você encontrar linhas que podem sugerir uma imagem figurativa, ou seja, você nunca sabe que desenho vai surgir com o rabisco. As vezes é um desenho legal, mas as vezes é uma merda. E sempre é um desenho diferente. Só que ela faz isso com o movimento do corpo. É bem bacana. E disto, devo como diretor, limpar e deixar mais artístico, dentro do conceito da peça. 

Enfim, voltando à narrativa. Ela estava experimentando uma corporificação para uma personagem, e quando eu achei interessante, eu passei a sugerir que esta personagem agisse em outras situações. Joguei dois objetos na frente dela e disse: "você está indecisa sobre qual objeto você quer pegar" e com isto, todo o jogo se transformou, pois dei um objetivo para a personagem perseguir. Ela criou, de acordo com o corpo da personagem, um jeito de ficar indecisa corporalmente... É, é, é... pensando agora, acho que fiz merda e só percebi agora enquanto escrevo este post... hahaha.. Ficar indeciso é muito subjetivo, não é uma ação, é algo emocional... E, quando se joga coisas emocionais para o ator improvisar, pode ficar meio... só na cabeça e não exposto fisicamente. Estão me entendendo? Embora, agora me lembro, na hora eu gostei, pois ela fisicalizou (fisicalizou=tornou físico) o "estar indeciso" - mas pode ser que atores inexperientes possam cair no clichê e ficar naquela indecisão de desenho animado. Enfim... 

Eu sei que esta improvisação, que ainda era sobre criar a corporificação da personagem, foi demais longa e acabou durando todo o ensaio. Quando vi, já tinha dado a hora combinada de terminar o ensaio, e a meu ver, não se tinha produzido nada ainda. Era como se este primeiro ensaio não tivesse ocorrido, ou fosse o ensaio numero zero, pois com ele que eu aprendi muito mais coisas e que no próximo eu pretendo me melhorar. 

Uma destas coisa que aprendi com este pseudo-primeiro ensaio (ou ensaio numero zero) foi sobre aquele momento de desespero que passei: 1) nunca chegue no ensaio sem uma gama de exercícios prontos em cima do texto. Tenha alguns na manga, caso as tentativas sejam falhas. 

Também abstraí e entendi o problema deste primeiro ensaio. Eu quis começar desde a criação da persaongem pela via da improvisação do ator. Algo que, agora entendo, é demorado pakas! Se eu continuasse a levar os ensaios dessa maneira, talvez em dezembro do ano que vem eu terminasse essa pequena cena que pretendo fazer com elas. Então o que eu aprendi foi: 2) dentro do limite de tempo planejado para os ensaios, não enrole na direção. (Não enrolar significa: não escreva um livro quando você tem que fazer uma síntese. Eu bem sei que eu AMO escrever demais, e não sou nada bom com coisas sucintas, breves, práticas, objetivas. Porém, para uma cena que pretendo fazer em 1 mês eu não devo partir desde a improvisação do caminhar do personagem. Devo ser mais ligeiro, mesmo que passando por cima dos meus paradigmas teatrais, e correr nos ensaios, já passando algo geral, já dando um parecer, já me adiantando com o ator, para ele saber o que eu quero dele.)

Estes aprendizados sobre a direção teatral só foram possíveis também pois aprendi muito com essa atriz "profissa" que está me ajudando muito e sendo quase uma professora. Humilde, sem neuras sobre ser dirigida por alguém menos experientes, super de boa em passar o que ela sabe. E não hesita em manter o profissionalismo, mesmo que talvez o resultado não seja o esperado.

.....

Escrevo agora de 2017... mil anos depois desse "ensaio zero"

Os ensaios não aconteceram... tiveram contratempos meus, das atrizes, enfim....

Estes ensaios aconteceram em dezembro de 2014... é faz um bom tempo mesmo! (meldels!)

Achei esta postagem rascunhada da época em que fiz, então até que tem boas impressões do ensaio ocorrido.

Depois desse tempo, não fiz mais nada com o teatro... embora tenha amigos atores, professores-mestres-doutores em teatro, amadores dessa foram de arte.

Todos os comentários são lidos, e caso eu receba alguns emails de vez em nunca, eu os leio com carinho e respondo dentro do meu limite.

Espero que vocês que lêem o blog e o consultam sempre, continuem levando essa forma de arte com carinho, dedicação e diversão. Pois o teatro é uma forma de arte temporal, única, que se forma na sua frente qndo vc menos espera ^^

Ah, vou postar mais pro futuro alguns links de peças de um grupo de teatro português que eu AMO e que me apaixonei qndo os vi pela primeira vez... foi paixão a primeira vista...mas vou deixar o post agendado tá (caso eu esquecer de entrar no blog) ;)

UPDATE: Post dos Videos agendado para Agosto-2017 =D

Merda pra vcs!!!










quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Como Dirigir uma Peça de Teatro - O Início

 Existe um termo que traduz meu sentimento para com o teatro = INSISTIMENTO

Eu insisto, apesar de saber que meus dias de glória meus dias de teatro já se passaram. Adoro quando recebo emails de leitores que buscam ajuda, ou que estão insistindo no teatro. E sim, leio todos os comentários tbm... heheh

Aliás, na minha própria cidade de interior eu achei uma 'insistidora teatral' muito determinada. Fico mto contente por saber que existem pessoas que lutam pela cultura, pelo teatro, mais que eu na verdade.

Bem, mas chega de blablablá e vamos ao que interessa para o blog-diário:

"Como Dirigir uma Peça de Teatro"

Eu bem sei que este é um termo que talvez trouxe você, leitor(a), aqui. Eu sei porque eu também procurei no google esse mesmo termo e me pergunte se eu achei alguma coisa? Achei nada! Então tive que recorrer aos universitários (ex-universitários de artes cênicas na verdade). E livros. E sites. E acreditar muito na minha intuição também. E botar a cara a tapa pra ver o que vai dar.

Neste post vou comentar a minha saga (teórica) de como ajeitar as coisas antes de chegar ao primeiro ensaio. E também vou descrever a minha saga (prática) do que eu fiz antes de chegar ao primeiro ensaio.

Como sabem (ou vão saber) já faz tempo que não mexo com nada relacionado ao teatro. Desde última vez, que eu realizei aquela oficina com meus amigos, eu não fiz mais nada. Mas eis que surgiu uma oportunidade neste mês de dezembro e cá estou para dividir minha tentativa de direção teatral com vocês.

Uma coisa já aviso: Isso tudo pode não dar nada certo. Até pq, o certo não existe no teatro. Não tem o jeito certo de fazer. Existe apenas o fazer. (frase que os universitários me disseram).

-----------(INICIO DA PARTE TEORICA)------------

"Então como é que se faz isso, produção?"

Após ter escolhido o que você pretende transformar em algo apresentável - um texto dramático, uma poesia, uma reportagem, um pedaço do seu diário, uma frase, um microconto do twitter, etc... Você, como diretor/responsavel da peça deve se fazer algumas perguntinhas - talvez óbvias demais e que nem mesmo eu me liguei de me perguntar:

1) Qual é o objetivo que me leva a querer fazer essa peça? 
1.a) Vale a pena montá-la?
2) Para quem é essa espetáculo? 
3) Qual é o objetivo do texto? Do autor do texto para com o texto? 
4) Qual são as capacidades/habilidades dos meus atores? 
4..a) É uma peça em que eu posso trabalhar/realizar uma experiencia criativa para todos os envolvidos?
5) Será divertido/satisfatório montá-la? 

Estas perguntas devem permear a mente do diretor antes de levar a proposta da peça para o grupo/atores. Até para servir de justificativa para caso seja questionado: "mas por que essa peça?".

Depois disso, o diretor/encenador deve fazer uma análise do texto. Essa análise servirá como base do futuro espetáculo que está para vir. Esta análise é tanto criativa como racional, pois servirá como guia para os ensaios, propostas de exercícios e todo o resto da produção até a apresentação. 

Bem, "Mas como se faz essa análise do texto?" 

Digamos que esta é a parte criativa do diretor para com a peça. É nesta análise sobre o texto, sobre o grupo, sobre tudo que envolverá a realização do espetáculo, que o diretor exerce a sua criatividade e define como será o espetáculo. Mas calma lá - não vá sonhando com as marcações nem entonações das vozes ou qual ator se encaixa em qual personagem. Muita calma nessa hora. 

O diretor deve fazer esta análise considerando mais o texto (ou processo criativo do qual surgirá o texto dramático) e fazer a sua "interpretação" do texto. Deverá racionalizar sobre qual o objetivo do texto, qual o enfoque que o autor quis dar com o texto, qual a função de cada personagem, quais possíveis temas, reflexões o texto traz - e outra série de coisas que podem ser aproveitadas.
A partir daí poderá também definir (ou ainda não) qual a estética da peça, qual o possível espaço que esta peça será apresentada (se de rua, de palco, de espaços alternativos, etc), qual tema poderá abordar como um todo... Esta é a parte criativa do diretor, no qual ele vai idealizar a peça. 

Existe uma técnica interessante neste ponto do processo criativo do diretor, que ajuda-o a como passar a sua intenção da peça para os atores durante os ensaios. De modo geral, esta tecnica se resume a 1) leia o texto inteiro e o compreenda cada parte; 2) divida o texto/peça em cenas ou pulsações mínimas, pequenas partes do todo; 3) divida estas pequenas cenas em frações mais mínimas, dissecando-a até chegar ao átomo da cena (que você vai descobrir ser as ações e intenções dxs personagens).

Chegando no átomo da cena, a ação dxs personagens em cena, este será o caminho para a construção das cenas pelos atores... Este átomo da cena converterá em propostas/problemas que o diretor dará aos atores para que eles solucionem (representando/atuando/improvisando) para que a peça se desenvolva e torne uma linda produção teatral. 

Em teoria, este é o início do trabalho do diretor antes mesmo de começar os ensaios. Ele deve já ter um objetivo (ou um vislumbre do objetivo) que quer alcançar e trazer consigo propostas de ensaio (exercícios, jogos) para fazer os atores atingir esse objetivo que ele idealizou. 

Percebam aqui que em nenhum momento eu cogitei em escrever "imaginem a peça dos seus sonhos" pois, lamento informar, o que você tiver idealizado muito provavelmente será difícil de atingir 100% idêntico ao da sua imaginação. Transpor um ideal de uma peça para a sua produção concreta não é uma tarefa fácil. Haverão impecilhos - atores fracos, falta de equipamento técnico, problemas de equipe, etc. - mil coisas que a Lady Lei de Murphy provavelmente vai ajudar acontecer. 

Não quero ter que dizer "Não ouse imaginar a peça sendo feita", mas você como diretor/entendido teatral sabe que se for para a peça ser exatamente como você sonhou, você terá que ser aquele diretor tirano, autoritário, que manda o ator fazer tintim por tintim, andar até ali, fazer tal pose, fazer aquela expressão de gato de botas, e o seu ator não vai passar de uma marionete para você brincar. Aconselho ir brincar de The Sims que é mais garantida a satisfação. 

O diretor/encenador deverá ser o líder do grupo (neste momento, claro) em que o grupo/atores deverão confiar cegamente que ele guiará para uma produção de algo que valerá a pena ser apresentada (ou senão qual o motivo de você estar fazendo isso?) 
E como líder, deverá conduzir os atores através de propostas/problemas dentro do contexto da peça para que os atores consigam criar a parte deles dentro da produção. Deixe que os atores atuem, enquanto você os guia em direção ao resultado que você sabe qual é. Não faça o trabalho do ator (que é representar/atuar/criar em cena) e nem deixe que o ator faça a sua parte (que é de encaminhar a atuação deles para o melhor resultado possível dentro da proposta que você idealizou). 

Bem, sabendo disso, você tem meio caminho andado para dirigir uma peça de teatro (ou até menos de meio caminho, talvez 1/3 do caminho...) É, ainda tem muita coisa por vir. Os ensaios ainda não começaram. 

------------- (INICIO DA PARTE PRATICA)---------

Lidando com a oportunidade de vir a ter outra experiência teatral, não tardei em começar minha busca teórica por material para eu conseguir trabalhar. 

Inicialmente meu objetivo era apenas me divertir fazendo teatro, ao invés de ficar mofando em casa. Tá, eu sei que é um objetivo péssimo para começar algo, mas isso acontece nas melhores famílias (ou como dizem, "em casa de ferreiro, o espeto é de pau"). 

E bem, foi por isto que o meu começo foi uma droga bem ruim. Queria apenas um texto fácil para trabalhar em algo rápido e sem dificuldades. Mas e eu consigo? Mesmo após escolher um miniconto, eu o abandonei e retirei algumas reflexões do meu diário íntimo, converti em frases de efeito (quase uma poesia) e 'bora tentar fazer a tal análise do texto!!! 

Mas quem disse que eu consegui? Minhas reflexões (meu texto) não sugere nenhuma cena, nenhuma ação, nada. Parece texto de auto-ajuda e que eu quero transformar em peça (ou como eu sugeri, em algo apresentável). E este foi o meu primeiro desespero (ainda havia outro por vir). 

Recorri aos universítários, como disse (meus amigos ex-universitários de artes cênicas - muito úteis quando eu não sei como fazer alguma coisa ou preciso de ajuda urgente) e deles recebi apenas incentivo e um "te vira, mané". Nem mesmo o google me ajudou muito neste sentido (confesso, tive medo de aparecer este meu blog nas respostas do google =P ). Por fim, me voltei aos livros que eu tenho. E um em particular - "Improvisação para o Teatro" da Viola Spolin - que eu sabia que tinham dicas mais práticas para o diretor. (obs: já citei-a muitas vezes no blog, ela estuda jogos teatrais e este livro tem milhares de jogos e dicas principalmente para quem trabalha com crianças. Vale a compra). 

Peguei o livro e o li nas partes grifadas que tenho, mas nada que eu já não suspeitava e que não tivesse pensado. O meu problema é o maldito texto que eu escolhi para transpor em peça, pois ele ainda está bem difícil de analisar. Foi então que, com ajuda, fui questionado às perguntas que listei acima (e que não tinha respondido ainda). Me foi abordado a seguinte pergunta: "Onde exatamente você quer chegar com esse trabalho ou texto?" E cataplufe, eis que a moeda caiu. Eu não tinha pensado nisso. O que eu quero com este texto? O que me levou a escolhê-lo? Como posso traduzir o sentimento do autor do texto (no caso eu) e o objetivo com o qual ele escreveu o texto (por isso eu peguei um texto meu) para um algo apresentável? Qual o tema/palavra-chave/assunto do texto que eu quero que a platéia sinta com a tradução para algo cênico? E destas indagações/análise racional sobre o texto que eu fui aos poucos conseguindo ter um vislumbre do que poderia ser apresentado. Até mesmo qual seria a estética da peça. Consegui, enfim, idealizar várias maneiras em o que texto poderia ser convertido em cena. 

E assim, mais tranquilo agora, conseguiria partir para meu primeiro ensaio. 

Mas eis que, cometi uma omissão que me atrapalhou no primeiro ensaio (fica para os próximos capítulos da saga), e apresentou-se o meu segundo desespero: uma atriz nova do grupo entende mais de teatro e direção teatral que eu (Ela é estudada, profissa, graduada). E agora, José? 

Confesso humildemente: caguei nas calças de medo. Como dirigir uma atriz profissa sendo que eu não passo de um amador sem muitas experiências??? Ela pareceu simpática, mas... Seria mesmo? Será que não vai ser uma vaca metida mimada que não recebe direção de alguém de menos experiência que ela? E como saber das habilidades dela... (lembram que comentei, conhecer as habilidades/capacidades dos atores) Realmente, eu estou numa enrascada! Não tenho a mínima noção do que ela sabe fazer, do comportamento dela, da humildade dela. 

Eis que um amigo meu cita: "Se ela for daquelas atrizes mimadas e metidas, tu ta fodido. Se não for, é tranqs". 

E foi assim que, com estes dois desesperos (texto e atriz) e uma omissão grave (duvido se alguém adivinha qual é) eu cheguei no primeiro ensaio.

Continua... 

-----------(FIM DA PARTE PRATICA)------------

Para quem acompanha o blog (que eu sei não ser mto difícil acompanhá-lo pois ele está há um tempinho jogado num canto da websfera) esta saga de "Como Dirigir uma Peça de Teatro" será de curta temporada, durando apenas o mês de dezembro/2014 e talvez janeiro/2015 (ainda não sei). 

Então, caso queiram, comentem neste post, me ajudem com suas experiências também, perguntem, tirem suas dúvidas, elogiem, xinguem, enfim... façam um auê enquanto eu estiver online na ativa. 

Depois, o blog voltará ao seu período de hibernação e só Deus sabe quando voltarei a escrever neste meu diário online - que ao que parece, ajuda alguns. 

Então é isso. Abraços e Beijos. E muita Merda para quem tá na ativa. 

Até o próximo post.

UPDATE: Veja a continuação desta história clicando aqui

sexta-feira, 14 de março de 2014

Oficina de Teatro 2/2 - "Como Começar a Aplicar a Técnica na Prática" ou "Ensinando a Atuar"

Olá leitores...

Continuando a comentar sobre a oficina que ministrei no dia 1º de março...

Depois de conversar e explicar a teoria (leia antes de continuar a leitura deste post) aos dois alunos (e amigos meus, professores amadores de teatro), eu passei a parte em que eu aplico a teoria na prática - e aplico ainda 02 técnicas de "interpretação" (por assim dizer)

Pode vir a ser útil para professores/educadores teatrais que aqui vêm a procurar conteúdo para aplicarem. Tentarei ser o mais descritivo possível.

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Depois de terminar de explicar a teoria, passamos à parte prática. Disse a eles que a própria "aula" de teatro deve ser baseada em alguns pontos teóricos e que as vezes não é dada a devida atenção.

Primeiro, deve-se evitar de segmentar as aulas em: aula teórica, aula de expressão corporal, aula de voz, aula disso ou aula de ensaio, aula daquilo. Todo horário que tiverem juntos é interessante passar por cada passo, nem que seja alguns minutos. Ou seja: toda aula deve ter teoria aplicada com expressão corporal, vocal, improviso, ensaio e etc... Isso é previsto com a inserção do "treinamento" dentro da aula.

Treinamento eu já vinha comentado aqui no blog: treinar o corpo que é o instrumento de trabalho do ator. conhecer esse instrumento, afinar, para então ensaiar/criar algo para apresentar. O que eu comentei na oficina é: "mudar o paradigma de chegar na aula e começar a ensaiar com o corpo frio e sem energia. É preciso ter em mente em toda aula o princípio de 'treinar-ensaiar-apresentar', ao invés do 'decorar-ensaiar marcação-apresentar'."

O treinamento, em si, deve ser dividido em outras 3 partes: alongamento, aquecimento e fortalecimento.

Alongamento = uns 5-10 min bastam. Passar por todos os membros.
Aquecimento = uns 5-10min também valem. Essa parte é interessante abusar de caminhadas, corridas, e a questão de alterações de energia - movimentos ultrarrápidos a super-lentos. Pode brincar de poses e estátua também.
Fortalecimento = 10-20min. Aqui o intuito é compreender o corpo e suas possibilidades. Eu gosto particularmente de usar o jogo das articulações, mas cabe o que normalmente se usa em uma aula de expressão corporal. Fazê-los abusar dos níveis de alturas (baixo, médio, alto) até caírem num nível de energia bem alto - antes de começar a ensaiar-criar.

Essa parte de treinamento cabe nos primeiros 20-40min de aula (dependendo do horário que você tem). Fazendo isso toda aula, é o suficiente para manter a segunda parte da aula mais aproveitável.

Algumas dicas que passei na oficina, enquanto aplicava a parte de "treinamento" foi:

1) Concentração = esta é a peça fundamental para o ator e para possibilitar a criação. A concentração deve ser mantida desde o treinamento até aos ensaios. A desconcentração vai haver, sim vai, principalmente com adolescente e jovens que nunca fizeram teatro. A desconcentração se deve ao fato de o aluno-ator querer avaliar (tanto a si mesmo, quanto aos outros) sobre o que está acontecendo no momento. Essa avaliação do aluno-ator é normal, mas deve ser combatida para não virar vício e querer sempre se avaliar.. por isso nunca fazer um ensaio de frente para um espelho - pq inevitavelmente o espelho vai ser a forma que o aluno-ator vai se avaliar e desconcentrar-se.
Devo também informar que a concentração se dá a nível íntimo, médio e geral (com o todo). Se caso a desconcentração atingir toda a turma, peça que todos voltem a se concentrar a nível íntimo - dando atenção aos movimentos conscientes que estão executando e esquecer todo o resto.

2) A Verdade Cênica = aqui, já é um nível mais advanced para os alunos-atores, porém deve ser comentado aos poucos sim, pois este que faz a representação do ator ser genuína, autêntica.
A verdade cênica é acreditar no que se está fazendo, não "fingir estar fazendo". Ou seja, ao fazer uma ação, fazê-la verdadeiramente. Não é por ser "teatro" que se deve "fingir" no palco. Não! Desminta isso aos alunos-atores!!! Deve-se acreditar na sequencia de ações praticadas, pois assim obtêm-se uma atuação verdadeira, chegando até a verdade do corpo.
Ao conseguir fazer isso - crer na ação consciente (exterior) - esta ação externa (ação física) vai ajudar na motivação do sentimento (interior - emoção) e, consequentemente, o interior evoca o exterior, tornando um ciclo vicioso.

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A Segunda Parte da Prática na Oficina foi o "Ensaio", que normalmente é conduzido de forma mais intuitiva de acordo com as aulas, por assim dizer.

Para esta parte da oficina, eu dividi o Ensaio em função de uma Apresentação Final que eu tinha em mente. Mas isso não impede um "Ensaio" de ser do jeito que você quiser.

Para esta oficina, eu quis mostrar que pode-se fazer uma encenação de qualquer fonte - não só de um texto dramaturgico. Logo, eu peguei um texto do Twitter, na verdade um microconto, e dele eu abstraí para uma encenação.

Deste microconto, eu extraí algumas ações que o texto sugeria, para usar essas ações nas improvisações dos alunos-atores. É um jeito em que o aluno-ator pode criar sobre o texto também, mas com o seu corpo.

Esta parte de extrair as ações de uma peça, está de acordo com a técnica do Stanislavski e chama-se "análise ativa do texto" - é a parte em que o diretor da peça participa da criação da encenação (em termos gerais). (Contudo isso NÃO foi ensinado na oficina, pois nem eu mesmo sei fazer isso direito).

Juntamente com as ações do texto, eu incorporei um experimento de usar improvisações animalescas para criar a partitura corporal das personagens pelos alunos-atores. Ou seja, eu usei de improvisações com animais para que o animal desse a forma de representação do personagem do texto (que não era um animal).

Assim eu improvisei com eles sobre alguns animais distintos: peru, pinguim, esquilo, pavão, ganso, urso... E conforme eles iam improvisando, eu ia avaliando as formas e maneirismos e ajudando ao ator a encontrar a forma ideal para formar a personagem.

Definido as formações animalescas, eu parti a improvisar com os verbos de ação que eu extraí do microconto (isto tudo fiz sem eles saberem o porque estavam fazendo isso. De certa forma eles já estavam ensaiando para um texto, mesmo sem saber disso. A visão deles era apenas um exercício de improvisação qualquer, aleatório. Só que não.)

Com os verbos de ação, pedi que improvisassem, usando a forma animalescas que conseguiram trazer do outro jogo, em cima destes verbos. Então, no ensaio da oficina, acabou um improviso de "filhote de pinguim" improvisando sobre como poderia "proteger-se". O outro aluno trouxe um "Ganso-Velho" improvisando sobre "Expulsar Alguém". E vários outros verbos de ação.

Isso trouxe, sem eles criarem mentalmente, mas somente com o corpo, muita referência corporal para a cena. Eles criaram a partitura corporal da personagem sem mesmo conhecer o texto, ou qual o nome e características da personagem. Uma criação vinda da improvisação - e não da marcação de cena ou da decoreba de texto.  

Isso é um caso em que a técnica de improvisação é usada em prol da criação da peça. Não partindo do "decorar texto-ensaiar" mas ao contrário "ensaiar por improviso-conhecer texto" . Isso traz até mesmo facilidade posterior em se adequar ao texto, pois as ações extraídas do texto podem trazer noções de como memorizar o texto e ditá-lo de forma coerente com a atuação. Por exemplo: a improvisação pede "empurrar alguém" e o ator cria este empurrar de várias maneiras. Ao ensaiar com o texto, o texto pede a fala "Saia daqui" e o ato de empurrar pode ser apoiado nesta fala. Assim, dependendo do modo de empurrar, a fala não será dita ao acaso, mas com motivação da ação de empurrar. A ação física "empurrar" trará efeito de verdade cênica à fala da personagem de "Saia daqui" e o ator fará isso, e memorizará isso sem problemas. Até mais fácil, a meu ver.

Em seguida, continuando a parte "Ensaio" da oficina, apresentei o microconto aos alunos-atores e pedi que ensaiassem o texto.

Curiosamente, eles leram o texto e começaram a ensaiar usando a mentalidade de "decorar-ensaiar marcações-apresentar". Ou seja, apesar de tudo que tínhamos feito, eles começaram a ensaiar fazendo marcações e gestos cotidianos (clichês) - como se nada que houvéssemos feito até então fosse aproveitável.

É possível que aconteça o mesmo com seus alunos, pois todos nós tendemos a fazer o que nos é conhecido (ou fácil, ou do jeito que achamos ser o certo). Não desanimem, apenas os orientem para que sigam conforme o jeito que vinham fazendo.

Outra coisa que aconteceu, foi que eles, ao lerem o texto, começaram a dialogar sobre como deveriam fazer a cena - usando da imaginação para formular a cena. Isso isso também é INCORRETO se caso usarem da técnica de improviso. O ideal é que comecem a ensaiar sem "idealizar no campo das idéias", sem comunicar um quadro mental com o parceiro. Eles devem ensaiar improvisando a cena, deixando-a fluir conformem fazem. Isso, num primeiro momento é um pouco estranho e complicado para eles, mas invistam neste método de ensaiar e criar cenas, pois o resultado muitas vezes acaba sendo improvável e compensador.

Ao tentarem ensaiar como outrora, eu repreendi os alunos da oficina e pedi que ensaiassem usando as improvisações que tínhamos feito, todas elas. E que ensaiassem sem se comunicar entre eles, apenas seguindo a intenção da cena (que deve ser deixada óbvia para eles - neste caso o diretor/encenador deve explicar para os atores - ou se quiserem [para uma turma advanced] deixem que eles criem a intenção da cena, conforme interpretaram ao ler o texto) e usando das ações físicas que tínhamos improvisado.

Neste tipo de ensaio, já é elaborado o perfil da cena - e eles mesmos acabam criando sua sequencia de ações (e não o diretor apontando marcações). O diretor/encenador deve auxiliar aos atores verificando qual das improvisações de cena é interessante (conforme a linha de encenação que queira para o espetáculo). Não seja um diretor-tirano (típico do séc XIX) em que marca toda a misè-en-scene passo-a-passo para que o ator-marionete siga. Deixe o ator, neste ensaio, criar a cena e assim, ele mesmo estará dando sua forma de criação para o espetáculo.

Os ensaios seguintes acabam a ser ensaios de refinamento das cenas criadas, deixando uma atuação mais limpa e acrescentando acessórios cênicos [como cenário, som, figurino, maquiagem, etc ou nada] conforme seja coerente com o estilo e linha de espetáculo que o diretor/encenador da peça tem em mente.

Ao final da oficina, deixei-os fazer uma apresentação final da encenação conforme eu tinha planejado. Claramente que saiu diferente que eu tinha imaginado quando a imaginei - e isto é bom, pois tanto eu (como encenador) quanto eles (como atores) criamos juntos uma cena. Eu criei o formato de apresentação, guiando os atores conforme iam criando a cena que eu tinha formatado. Uma criação conjunta.

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Bom, embora este relato seja mais descritivo, espero que seja possível extrair dele conteúdo para que se aplique a qualquer tipo de processo teatral.

Não digo que estas técnicas apresentadas sejam as corretas - e que outros jeitos sejam errados. Não! No teatro a experimentação de técnicas, métodos, jeitinhos e afins é que faz o processo de criação seja agradável para todos os envolvidos. Contudo, estas técnicas que passei tem embasamento em vários pensadores do teatro contemporâneo e em práticas teatrais históricas, experimentadas por séculos. Não escrevi aqui neste post (nem ensinei na oficina) nada que não tenha um porquê ou que não tenha sido usada anteriormente. Apenas usei o atalho do conhecimento da história do teatro para não ficar tentando inventar a roda toda vez que pensar em ensinar teatro ou mesmo fazer uma peça. E, se me permitirem, aconselho a vocês - alunos, atores, professores e educadores - a usar também deste atalho.

Merda para todos.

Obs: Qualquer dúvida, mandem comentários ou email.









terça-feira, 11 de março de 2014

Oficina de Teatro 1/2 - "Como Ensinar Teoria de Teatro" ou "Quebrando Paradigmas"

Olá ilustríssimos leitores...

Venho, depois de muito tempo, a escrever outro post para o blog, dessa vez por 2 motivos:
1º - Há tempos que venho acompanhando as estatísticas e parece que recebo mta visita de professor/educador teatral (vide pesquisa ao lado) e
2º - Meu post mais visitado, com mais de 5 mil visualizações é sobre como começar a primeira aula.

Então vejo que este post pode ajudar quem quer começar de mesmo modo.

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No dia 1º de Março de 2014, ministrei uma oficina teatral à dois amigos meus, professores de teatro da minha cidade natal. Contudo (para vcs entenderem o contexto) eles não são profissionais, nem graduados, nem nada. Amadores de Teatro. Apenas amam teatro e dança e conseguiram um lugar para ensinar teatro para crianças e adolescentes.

O meu porém, desde que comecei a estudar teatro (se vc leram os posts, sabem que foi por volta de 2011) é que só apenas fazer sem conhecer pode ser frustrante. Caí no cliché de "decorar-ensaiar_marcações-apresentar" de que esses meus amigos vinham praticando com seus alunos - ou seja, não acrescentando nada em termos de qualidade teatral. Apenas um teatrão comercial, típico de meados do século XIX.

Foi então que, somado à minha vontade de esclarecer esse paradigma do amador (decorar-ensaiar-apresentar) e de levar conhecimento aos que precisam (seja por este blog, seja por oficina gratuita) decidi fazer uma oficina teórico-prática especialmente para eles - professores amadores de teatro.

E aqui vai meu relato e roteiro desta oficina, o que apliquei, como apliquei, o que expliquei, um passo-a-passo para dar um up numa aula de teatro - para adolescentes, jovens e adultos. (para cças tbm pode ser aplicado, mas acho que depois escrevo outro post)

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ROTEIRO DA MINHA OFICINA DE ENSINO TEATRAL PARA PROF. AMADORES

- O que se precisa para fazer teatro? Eis a pergunta carro-chefe para você, prof/educ refletir... É necessário lugar, texto, atores, cenário, música, luz, improvisos, público, figurino... ??? Mas o que é estritamente necessário para que "a mágica do teatro" aconteça??? Se refletirmos bem, ficamos com atores, público, lugar/espaço e texto. Certo? Errado?

Peter Brook comenta: a célula do fazer teatral tem 3 elementos fundamentais: o Ator, Público e Espaço.

Mas e o Texto???

A história do teatro, desde a antiga Grécia, traz dramaturgos como Eurípedes, Sófocles, Ésquilo e Aristófanes como principais autores de teatro. (e textos como Medéia, Édipo-Rei, Antígona, etc..)
Na Idade Média, temos o Gil Vicente com o Auto da Barca do Inferno e outros...
No Renascimento (Período Elisabetano) contamos com Shakespeare e sua dramaturgia universal.
Ainda contamos com Molière na França do século XVII até o século XIX
E no início do século XX tem Tchecóv e então, enfim, chega um dos primeiros teatrólogos que todos os amadores devem (ou deviam) conhecer: o russo Stanislávski.

Stanis (apelido carinhoso) foi um dos primeiros caras que refletiram sobre o fazer teatral. O "como" o ator consegue "encarnar" um personagem. E para tal, ele escreveu alguns livros sobre suas reflexões. Estes livros do Stanis existem em português, porém eles foram traduzidos do inglês americano (que este foi traduzido do russo original). O problema é que a versão americana sofreu algumas eliminações de textos do russo, e algumas outras coisas que não o fazem ser a leitura perfeita (quiser saber mais, clique neste link). Isso traz para o amador, que lê sem saber, e acha que o texto é perfeito, então acaba compreendendo algumas coisas erroneamente e reproduzindo o "sistema Stanislavski" de forma errada.

Digamos que, (vou esclarecer de modo mais leve e superficial, sem entrar em questões que graduações e cursos profissionais devem ou deveriam entrar), o Stanis achou, num primeiro momento (em seu primeiro livro) que o ator deve despertar o "personagem" a partir das suas "emoções" - ou seja, vem de dentro para fora, deixando a inspiração fluir e a interpretação realista aparecer. Isto é o que vc aprende do primeiro livro do Stanis - "a preparação do ator", lançado em russo aprox nos anos de 1926-38 (wikipedia).

CONTUDO (atente-se muito a este parágrafo de agora) o próprio Stanislavski EVOLUIU seu "sistema": "Não se pode confiar na 'emoção' ou 'inspiração' porque cai no clichê. É preciso confiar na evocação consciente (...)" EVOCAÇÃO CONSCIENTE. O que é consciente? Aquilo que se tem consciência, pleno funcionamento dos sentidos, aquilo que é feito com pleno conhecimento do próprio indivíduo (Dic. Aulete, 2014). Ou seja, o Stanis evoluiu seu sistema de algo que vinha de dentro (inspiração) para algo que vem de fora (consciencia de fazer). E a esta evocação consciente, ele chamou de ações físicas, pois tudo que fazemos conscientemente são resultados de um agir, de um movimento, da realização de uma atividade/postura/gesto.

Esta inversão do paradigma inicial de sua pesquisa só veio um bom tempo depois (dizem 30 anos depois) que os ensinamentos do primeiro livro já tinham se difundido pelos EUA e de lá para o mundo. Meio que por esta razão que muitos atores-estrelas creem serem dotados de um "dom mágico" do fazer teatral - pois acham que suas emoções lhes lançam uma bela interpretação realista.

Bom, isso tudo, aconteceu até meados do século XX. (se caso vc ainda faz isso, melhor vc pensar a respeito e se modernizar, e parar de tentar descobrir a roda, porque né... repetir os erros do passado é trash!)

Enquanto isso aconteceu lá pela Rússia (Stanis e as ações físicas para o ator interpretar um texto dramaturgico), na França acontecia uma outra coisa.. em partes semelhante.

Até início do século XX, na França o que reinava nos palcos italianos eram o showbusiness do teatro (sistema de estrelato como acontece nos filmes). Atores-estrelas que subiam no palco (para alavancar mais público e mais dinheiro) para recitar o texto de um dramaturgo conhecido (um texto/roteiro bom), enquanto era mostrado o figurino luxuoso, o cenário deslumbrante, a orquestra maravilhosa para um Rei, burguesia, apenas estarem lá presentes por status. Os demais atores eram manequins dos figurinos, pobres recitadores de texto, e dirigidos à mão de ferro por um sistema de marcação de palco - "ande até ali, gesticule e fale o texto".

Neste tempo, Jacques Copeau (1979-1949) foi um crítico teatral que percebeu que se continuasse assim, o teatro deixaria de ser teatro... Era muita filhadaputagem nesse sistema de estrelato que o ator não tinha vez no teatro. Assim, subiu nele uma vontade de re-educar o ator para que pudesse realmente fazer um teatro de qualidade.

Deste modo, ele criou a escola Théâtre du Vieux-Colombier em Paris, na qual estabeleceu 3 elementos para que o ator devesse estudar para melhorar sua capacidade interpretativa: o espaço, a improvisação da Commedia Dell'Arte e o Corpo Articulado (provindo dos teatros orientais - Japão, China, India).

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Fazendo uma breve interrupção para re-contar a história do teatro sem levar em conta o texto dramatúrgico.

O teatro tem seu início com o teatro primitivo, com os rituais, em que o homem não tinha um texto, mas um contexto a seguir, a vibrar sua energia.
Na própria grécia, além dos grandiosos dramas gregos, existiam os mímicos e as danças, que era divulgadas e apresentadas para o povo, na rua, para as pessoas comuns, para os marginalizados.
Na India, China e Japão, o teatro também passa pelo ritual, pela dança.
Na idade média, renascimento, o teatro de rua ganha os cômicos da Commedia Dell'Arte e o improviso corporal, trazendo técnicas de mímica, voz, acrobacias e bagagem cultural. Eram apresentados em feiras, ruas e praças. Era ditos improvisadores.
A Commedia Dell'Arte acaba sendo incorporada ao teatro de Molière, na França, até ser reencontrada pelos teatrólogos do século XX.
(A mínima que aqui cito é diferente da pantomima, que é a imitação clássica do Marcel Marceau - o mímico mudo que faz parede invisível).
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Assim, Jacques Copeau usava da improvisação (provinda dos comediantes dell'arte) para quebrar a dicotomia da criação teatral de autor/ator, trazendo uma nova posição ao ator - até então renegada - a de Ator-Criador

Artaud, outro um teatrólogo francês, também comenta sobre a criação no teatro. Escreveu que "não representamos sobre obras escritas, mas em torno de temas, fatos ou obras comuns, tentaremos uma encenação direta (...)".

E não foi só o teatro francês que foi contra à ditadura do texto no teatro.

Meyerhold, um aluno do Stanislavski, tbm pesquisou e refletiu sobre o trabalho do ator, de que este nascia do movimento... Teve como inspirações de seu trabalho a commedia dell'arte, a pantomima e o teatro chinês.

Grotowski - da Polônia - também busca entender o processo teatral que acontece entre ator e público - este processo na susa pureza, sem adereços cênicos...

Eugênio Barba (Italiano que foi pra Dinamarca) também estuda o treinamento para o ator. Conclama a Antropoliga Teatral - trazendo a idéia de um movimento extra-cotidiano para o ator. E a concepção de treinamento-ensaio-apresentação para o processo do fazer teatral.

A nossa famosa artista Denise Stoklos ratifica, em uma entrevista, que caso o trabalho do ator se inicie com um texto, ele começa pela metade, pois já existem os personagens, a história, os valores envolvidos. Que ela gosta mesmo é de ser a própria autora, de criar a personagem e trazer à tona a trajetória inteira.

Por fim, Luís Otávio Burnier - fundador do teatro LUME - comenta em seu livro que o ator:
- não faz teatro; Teatro é uma palavra que significa o Espaço de Contemplação. É a construção arquitetônica. O ator faz "arte de ator" - não "do ator" pois ele não é dono nem tem propriedade sobre esta arte.
- não interpreta; O ator se põe como intermediário entre a obra escrita e o público. O público interpreta os signos que o ator lança a ele. O ator representa algo ou alguma coisa que é transmitido ao público através de uma forma/simbolo/signo.

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E esta foi a parte teórica que eu passei na Oficina para prof/educ amador teatral.

É interessante que o prof/educ teatral conheça pelo menos o básico da história do teatro e que não queira reinventar a roda, mas que use deste conhecimento para transmitir uma base, mesmo que simples, para que os alunos não saiam achando que fazer teatro seja decorar-ensaiar-apresentar. Que é muito mais que isso.

Que o ator pode criar sobre o texto. Que ele pode improvisar (corporalmente) sobre as ações físicas de um texto. Que ele deve treinar seu corpo para que este seja a base da interpretação (e não as emoções-inspirações).

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E como isso pode ser levado à uma aula de teatro? Fácil. Converse com seus alunos, faça que uma de suas aulas seja um pouco mais teórica e passe um Bê-a-Ba da história do teatro, falando da grécia antiga, da commédia dell'arte, leve videos, leve filmes, fale do sistema de estrelismo que acontecia (e ainda acontece), e por favor, fale que ele não deve tentar usar as emoções para representar um papel, mas usar do corpo consciente (dos movimentos) para basear o seu papel.

E ah, também aproveite e tire da cabeça do aluno que fazer teatro vai levá-lo à ser um astro da novela das oito. Se ele quiser isso, que faça cursos destinados à interpretação para vídeos, cursos em SP e RJ. O teatro evoluiu e não quer ser uma próxima novela das oito, mas quer ser uma arte cultural única, viva, presente.

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Num próximo post, comento da parte prática desta oficina e exercícios que usei. E técnicas que vcs podem usar nas aulas. E o como utilizar improvisações corporais com os alunos.

Merda pra vcs.

Obs: Alguma dúvida, só escrever nos comentários...